Por favor, professor, qual a mais
importante competência a desenvolver em alunos do Ensino Médio, para que com
mais facilidade aprendam e mais sucesso mostrem nos exames vestibulares?
Por favor, professor, qual
músculo mais importante desenvolver para que meu filho se transforme em um
excelente jogador de futebol e possa, no futuro, ganhar o que ganha hoje um dos
Ronaldos?
Embora aparentemente diferentes,
as duas perguntas possuem algo em comum: a impossibilidade de uma resposta.
Realmente é tão absurdo falar-se em uma competência a desenvolver, quanto
acreditar-se que um único músculo possa ajudar a prática deste ou daquele
esporte e, pior ainda, garantir a integridade do sucesso. O mais coerente é
pensar em quais competências desenvolver e ainda assim acreditar que através de
muito esforço e treino essas competências levam o aluno a aprender melhor, fato
que absolutamente não significa que o tornará capaz de driblar os imensos
labirintos que o farão atravessar as estreitas portas dos vestibulares mais concorridos.
O desenvolvimento desse elenco de
competências não representa segredo deste ou daquele professor, antes se insere
nos próprios documentos que analisam os Parâmetros Curriculares Nacionais para
o Ensino Médio e estão claramente enunciadas nos Documentos Introdutórios dos
Exames Nacionais do Ensino Médio. Em síntese, esses documentos enfatizam:
1º- As competências que se
necessita estimular devem ser vistas como modalidades estruturais das
Inteligências e, portanto, um conjunto de ações e operações que devem ser usadas para estabelecer relações
múltiplas e resolver problemas. Desde que devidamente adquiridas, geram
habilidades (saber fazer) e, portanto, pensar em competência significa explorar
a faculdade de mobilizar diferentes recursos cognitivos para com eficiência e
pertinência enfrentar e solucionar desafios. Em síntese, “competência”
significa compreender uma pergunta e mobilizar os elementos estruturais que se
tem na cabeça para encontrar uma resposta eficiente.
2º- Compreendendo-se com clareza
o que efetivamente é uma competência, chega-se ao elenco das que são as mais
importantes, ainda que não exclusivas. Entre estas, cabe destacar a capacidade
de abstração que se desenvolve no aluno e que se conquista, paradoxalmente,
“tirando-o” dos seus pensamentos e levando-o a “pensar no que antes nunca
pensou” – que é o tema que se trabalha – para logo depois “trazê-lo de volta”
associando o que descobriu com o que de novo pensou com o seu mundo, seu
entorno, seus conhecimentos. Com esta competência o aluno não aprende como quem
apenas veste uma camisa, mas tal como a que a transforma na sua segunda pele,
contextualizando-a a suas emoções e aos encantos de sua vida e sua realidade
circunstancial. Simultaneamente à essa competência, é importante estimular a
capacidade desse aluno em assumir um pensamento sistêmico não mais percebendo o
que aprendeu como “ algo solto” na memória mas como parte integrante de um
todo. Conquistar essa maneira de pensar é jamais confundir capítulo com novela ou degrau com
escada, mas como uma das partes da mesma
que assim insere esse saber em outros mais amplos que, por sua vez, em outros
ainda mais amplos mais intensamente o insere.
3º- Outras duas importantes
competências a estimular, ainda diante do mesmo tema ou elemento do aprender,
são uma visão criativa e uma ação curiosa. A criatividade se manifesta pelas
associações indispensáveis que se fará entre o objeto do saber e a vida que se
vive – se a cena da aula de história se associa ao lance futebolístico
inesquecível, essa cena melhor será preservada na memória episódica – e essa
criatividade não se manifesta caso o professor não levante perguntas
intrigantes, desafios curiosos, propostas inusitadas que por alcançar a
surpresa levará o aluno a conquista de uma resposta criativa.
4º- Essa resposta, entretanto,
jamais deverá ser solução única, elemento solto que divaga pela memória
explícita e sim uma resposta com diferentes alternativas e caminhos de
diferentes aplicações. Essa busca de alternativas diferentes não se conquista
senão pelo treino e não existe espaço mais fértil para o mesmo que a sala de
aula. Até que ponto a solução que se encontrou na matemática é válida para a
geografia? Possa usar em história os passos que, em língua portuguesa, aprendi
na análise sintática? Quando, através do insubstituível exercício do treino
puder o aluno caminhar por essas múltiplas alternativas para uma mesma
resposta, deverá aprender a trabalhar em equipe e dessa forma compartilhar
saber nem como quem “ensina” o colega ou como que dele “aprende” mas como quem
divide experiências e, literalmente, troca idéias. Ora, o que é uma “troca” de
idéias sem o espírito de um verdadeiro intercâmbio que enriquece todos
envolvidos na busca dos mesmos caminhos. Trabalhar em equipe, entretanto, não
simboliza competência que nasce da simples junção de pessoas, mas e ainda uma
vez, do treino. Treino em que se aprende a aceitar criticas e a fazê-las, onde
se exercita com o outro o sentido de uma verdadeira cooperação. Trabalhar em
equipe – desculpe a sensualidade da imagem – é mais ou menos como plenamente
usufruir o sexo; sem autêntica parceria, igualada pela intensidade da troca,
essa relação transforma-se em masturbação à dois.
5º- Ao se alcançar essas
competências chega o momento de se inventariar outras e entre estas é essencial
o aprimoramento da comunicação que se faz, buscando as melhores palavras para
com mais vigor se estimular idéias e o refazer das frases prontas, na busca de
melhor fazê-las. Jamais um texto pode ser tão primoroso que não possa se
beneficiar de uma revisão cuidadosa que não apenas o corrija, mas que possa
imprimi-lo de maior beleza, mais cuidadosa precisão. Isto alcançado, chega-se
finalmente ao desenvolvimento da competência de se buscar novos conhecimentos,
sem jamais deixar de se exercitar diferentes habilidades – comparar, analisar,
classificar, sintetizar, conceituar, expressar, descrever, contextualizar e
outras mais – que, em última análise, nada mais é que ensinar o aluno a pensar.
É evidente que nesta síntese não
se buscou objetivos explícitos e conhecimentos específicos de cada disciplina
que, por sua vez, também tem outras competências a sugerir. Mas, quando esses
caminhos se trazem para a aula, atribua-se o nome que se queira atribuir, em
verdade o professor está verdadeiramente ensinando, pois tem em mente um aluno
que essencialmente nada mais pede que o direito de aprender. Assim agir não
significa apenas pensar no que faz, mas inclui também pensar para quem se faz.
Celso Antunes
- Formado em Geografia pela Universidade de São Paulo (USP);
- Mestre em Ciências Humanas pela Universidade de São Paulo (USP);
- Especialista em inteligência e cognição;
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